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crítica: Um Beijo Roubado
por lucas arantes
O novo filme de Wong Kar-Wai, “Um Beijo Roubado”, primeiro filme em linguá inglesa do conceituado diretor chinês, estreiou em Ribeirão Preto no último final de semana e está praticamente com todas as sessões lotadas. Não é por menos. O cineasta sabe se apegar aos detalhes da vida e sabe que o motor das emoções está, muitas vezes, nas pequenas expressões, nas pequenas interpretações singulares que temos sobre o mundo, que apesar da sociedade buscar oferecer representações fixas sobre certos parâmetros emotivos, estas representações não suplantam, nem dão conta, da torrente de significados existente na forma autorizada de enlouquecimento e sofrimento enraizado pela nossa sociedade: o amor.
O enredo é simples, em termos da história como pano de fundo, mas o que se passa entre os personagens é absolutamente complexo e emocionante: um dono de bar que está no mesmo estabelecimento há anos, com esperança de que a ex-namorada volte, pois quando era criança aprendeu que caso de perdesse da mãe em algum parque, por exemplo, o melhor era ficar parado no mesmo lugar para que a mãe o encontrasse, ao invés de ficarem os dois perdidos procurando; uma mulher (protagonista interpretada pela cantora e, agora, atriz Norah Jones) que viaja durante um ano para passar por um processo ritualístico de desapego do ex-namorado e para trabalhar afim de comprar um carro; um policial que acredita que ainda esta casado com a mulher (atente-se a fabulosa interpretação do ator que faz este personagem no momento em que conta que há tempos tenta parar de beber) e a jogadora de pôquer milionária que nega o amor pelo pai, mas que nitidamente está amarrado à ele. E no meio disso, uma torta de mirtilo, ou “blueberry”, feita com pequenas e raras frutas roxas.
O diretor sabe valorizar o espetáculo. Sabe que enquanto fazemos determinadas ações, estamos, ao mesmo tempo, fazendo outras. Assim, eus personagens se emocionam enquanto na verdade, deveriam estar se divertindo.
Diretor de “Amor À Flor da Pele”, “Dias Selvagens”, o aclamado “2046” e “Amores Expressos”, “Um Beijo Roubado” é uma variação dos temas tratados em seus outros filmes: os encontros, desencontros, sonhos, esperanças e reencontros que temos com o nosso desejo, matriz simbólica das emoções. Como diria o poeta carioca “a vida é a arte do encontro, embora haja tantos desencontros pela vida”. Mas, como mostra o filme, os encontros suplantam os desencontros.
Sem dúvida, “Um Beijo Roubado” mostra uma nova face do cinema moderno, apropriando-se das artes plásticas e da música, elaborando diversas obras de arte em um único conjunto. Mostra como os objetos banais da vida, como um semáforo ou um poste, local de encontro de dois desconhecidos que tornam-se amantes, passa à ser palco para o drama de ser demasiado humano. O conhecido, aqui, fica estranho.
Crítica: Império dos Sonhos
por Lucas Arantes
Saber quantos filmes existe dentro do filme “Império dos Sonhos”, de David Lynch, recém lançado em DVD, é um trabalho quase que de ourives. Descobrir isso é o mesmo que esmiuçar os personagens de “Cem Anos de Solidão”, do Nobel Gabriel Garcia Marques. Apesar da aparente complicação, a obra de Lynch não é um universo hermético, fechado em sua própria hostilidade. No lançamento do próprio filme o diretor chegou à afirmar que “Império dos Sonhos” era um filme simples e de um enredo também simples. De certo modo ele está certo. O diferencial fica no desdobramento do enredo e das ligações insólitas dos personagens, objetos e da linguagem cinematográfica que o diretor coloca em ato.
“Império dos Sonhos” talvez seja uma alucinação do dia de amanhã. O cineasta norte-americano, que começou jovem no cinema aos 29 anos, com “Eraserhead (cabeça de apagador) em 1977, filma como quem escreve, sem saber de antemão onde vai desembocar a sua trama. E é justamente por onde ele caminha e por onde ele chega, que está o interessante de sua narrativa.
Linch É um diretor corajoso ao tratar de Hollywood. No início do filme, uma velha um tanto quanto bizarra, vai visitar uma atriz, dizendo que é sua nova vizinha. Cheia de presságios e contos ciganos, a velha aponta para o sofá em frente onde as duas estão sentadas e diz que se fosse amanhã, a atriz estaria sentada ali, do outro lado do sofá, e teria passado no teste para ingressar no novo filme em que tanto deseja.
E então, o filme começa ali, no dia de amanha, onde a atriz recebe a notícia que ganhou o papel do filme em que fez o teste. Todo o filme passa a ser uma alucinação dentro do delírio da cena da velha (que talvez nem exista), onde uma história entra na outra, no começo de forma sutil, depois de forma atordoante. A ficção entra na realidade, a realidade invade a ficção e o mais impressionante: a ficção passa a interferir na outra ficção criada pelo diretor, sem ter que fazer ponte na realidade, criando, assim, uma ficção terceira que invalida, de certa forma, as ficções que delas se subordinaram.
Lynch é um escritor onírico, que sabe se utilizar dos sonhos e da psicanálise. Ora o filme parece uma pintura ou um quadro de uma galeria contemporânea. Seus personagens são representações de outros elementos do nosso mundo interno e externo. O diretor sabe que um objeto simples, como um abajur vermelho, pode adquirir múltiplas interpretações, dependendo da maneira que é olhado. Faz um filme de terror sem precisar colocar monstros, pois o medo é universal e ao mesmo tempo, particular.
Lynch é um diretor obsessivo, como os seus personagens. Um artista completo. Canta e compõem em “Império dos Sonhos”. São três horas de associação livre, em busca de uma lógica dentro do filme e de seus significados e significações possíveis, que remetem à programas televisivos e outros trabalhos do próprio cineasta, como “Veludo Azul”, ”Cidade dos Sonhos”, “Coração Selvagem” e “A Estrada Perdida”.
Sem estragar o final, Lynch termina o filme com uma mensagem de fôlego, de liberdade, no meio de tantos sentimentos e sensações persecutórios do enredo. É no desfecho que a realidade toma o seu lugar, com as reminiscências adquiridas no sonho (filme). A realidade é transformada pelo sonho (filme), mas é somente pela realidade que os sonhos podem existir. E com a temática dos sonhos Holywoodianos sempre recorrente em seus filmes, somado ao questionamento do valor de importância que a realidade tem no meio de tanta ilusão, Lynch termina dizendo algo como “vocês é que são reais, nós somos a fantasia”.
Saramago emocionado
Já está circulando faz alguns dias pela internet, o vídeo em que o escritor José Saramago assisti a adaptação do seu livro “Ensaio Sobre a Cegueira” para o cinema. O diretor brasileiro Fernando Meirelles disse que sua maior expectativa com relação ao filme, era a reação de Saramago ao vê-lo. O vídeo responde a essa espectativa.

