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Teatro: Ensaio Sobre o Sonho
DIAS 10, 17 e 31 de OUTUBRO (sextas-feiras) 7, 14 e 21 de NOVEMBRO (sextas-feiras)
Local: Espaço Cultural A Coisa, Rua Amador Bueno, 1.300
HORÁRIO 21h e 0h OUTUBRO e 0h em NOVEMBRO
CAPACIDADE 15 pessoas por apresentação
PREÇO R$ 10 (preço único)
ELENCO: Lucas Arantes, Maria Angélica Braga e Mateus Barbassa.
RESERVAS: (16) 9742-7073
Com a Trupe Acima do Bem e do Mal
Ensaio sobre os Sonhos é uma experimentação teatral resultante de uma pesquisa do grupo acerca da obra de Freud sobre a temática. A Montagem Cênica retrata o universo do inconsciente, através de lembranças recalcadas da infância e de restos diurnos de nossa vida cotidiana. As personagens caminham numa corda bamba de gestos e frases que desembocam até o limite do sonho, como se só pudessem atingir a realidade através desses mecanismos. As cenas sutilmente dialogam entre si e se mesclam, formando um emaranhado de sentimentos, desejos sexuais, sensações, fragmentos musicais e de rezas, palavras e imagens que se encontram armazenadas em nossa mente. “O Sonho é como um fogo de artificio, que leva horas para ser preparado, mas se consome num momento”. Textos: Clarice Lispector, Fernando Arrabal, José Régio, Nelson Rodrigues, Samuel Beckett e Lucas Arantes. Base Teórica: “A Interpretação dos Sonhos” (Cap. 7) de Sigmund Freud. Concepção Cênica e Adaptação: O Grupo. Coordenação e Trilha Sonora: Mateus Barbassa.
Aconselhado para maiores de 18 anos.
Crítica: A Alma Boa de Setsuan
O teatro ribeirão-retano foi agraciado no último domingo com uma cuidadosa montagem do espetáculo “A Alma Boa de Setsuan”, do dramaturgo e teórico alemão Bertolt Brecht. A peça fez parte do festival de teatro TPC e foi dirigida por Mateus Barbassa. No elenco, atores lúcidos deixaram o espectador suspenso pela palavra, elemento principal da montagem. O diretor descartou elementos fáceis de entreter e distrair o público, se arriscando, assim, a ousadias estéticas interessantes. Os atores, por conseguinte, impressionaram com seus tipos, marcando claramente uma narrativa interpretativa.
A história é uma fábula de “como ser bom se a comida do mundo anda tão cara”, fala de Chen Tê, personagem protagonista da peça. Chen Tê, escolhida pelos deuses pela sua bondade, protesta pela escolha dizendo que não é nenhuma “alma boa” e que apesar de ter acolhido os deuses em sua hospedaria, tem um lado mal e que além de tudo, vende seu corpo para pagar o pão. Os deuses não lhe dão ouvidos e a pagam pela hospedado amigável. Em seguida, a declaram a alma boa da cidade.
Chen Tê, em decorrência da situação e da quantidade de pessoas que vem pedir ajuda a “alma boa”, se vê obrigada a criar um primo, que ela mesma representa e que atua como o lado “mal” da personagem, dizendo tudo o que ela gostaria de dizer aos parasitas que vêm grudar em seu corpo em troca de alguma vantagem. É o lado negro necessário e social da personagem.
Cantigas de ninar, Mamonas Assassinas, rap, rock in roll, Björk e música erudita, compõem a excelente trilha sonora da peça. Duas expressivas atrizes atuam como a prostituta Chen Tê e seu primo, retratando sempre o seu caráter ambíguo, maniqueísta, passivo, irônico e lúcido sobre o mundo/situação em que foi sendo inserida por sua própria condição. Os outros atores não deixam por menos.
A peça faz parte do repertório do grupo ribeirão-pretano TPC, mas se distancia de outras montagens da companhia, já que “Alma Boa de Setsuan” faz parte do projeto Ademar Guerra, que visa o deslocamento pelo país de profissionais experientes para supervisionar grupos amadores. O que o TPC propôs foi um projeto pioneiro na cidade de estudo e montagem de Bertolt Brecht, com supervisão da respeitada Lúcia Capuani, atriz, professora e diretora teatral.
Esperamos que este espetáculo não caia no vício do teatro local: o de passar meses e meses de ensaio para a montagem de um espetáculo que só será apresentado na estréia (como conclusão de curso de uma escola e faculdade, por exemplo), sendo esquecido em seguida pelos atores, que partem para outras montagens, sem nunca ter executado diversas vezes uma única peça. O exercício de apresentar dezenas e dezenas de vezes é fundamental para o amadurecimento do elenco. Como diria Manoel de Barros “repetir, repetir, até ficar diferente. Repetir é um dom de estilo”.
Há muito que se aperfeiçoar na peça, mas como o próprio texto final do Brecht diz “cabe a você, público ouvinte (e pensante) dar continuidade a esta fábula na vida e buscar melhorá-la a sua maneira”. Como se os possíveis equívocos das personagens postas em cena pudessem ser mudadas com a nossa postura ética fora do teatro.
Espetáculo: “Plínio Marcos: Um Roteiro”
O interessante “Plínio Marcos: Um roteiro”, da companhia ribeirãopretana Cebrat de teatro, é um daqueles espetáculos em que você se sente privilegiado em assistir. Com direção de Giba Freitas, a apresentação é realizada para um pequeno número de espectadores, em um espaço alternativo e intimista.
Concebido com o deslocamento do espectador em uma casa abandonada, a transferência físico possibilita a mudança temporal dos diversos fragmentos de textos do escritor Plínio Marcos. O resultado é praticamente uma nova dramaturgia do escritor maldito, traçado pela companhia.
Iniciamos o espetáculo na rua com o grupo cantando os títulos das peças de Plínio, fazendo uma amarração interessante. Dois palhaços se preparam para a espera do público. O ar alegre é triste, porque o público não vem. A encenação é divertida. Somos chamados por uma personagem a entrarmos na casa. Ela é quem irá amarrar as cenas, como alguém que está presente sem estar. Vivida por Anee Pelucci, essa personagem será também uma criança muda estuprada pelo seu tio, na ótima cena realizada por Andre Mendes, que estica um tecido transparente no rosto provocando uma modificação macabra no tio “acolhedor”.
A melhor recriação é encenada pelos atores Douglas de Faria e Marcelo Moda, que metaforizam “Dois Perdidos em Uma Noite Suja”. Com trilha ao vivo, lembrando o rádio-teatro, todo o texto é sugestionado sem o recurso da retórica. Aqui, mais uma vez, o grupo se utiliza bem da figura do palhaço e envolve o espectador antes de sufocá-lo.
Essa nova montagem da companhia mostra um caminho para uma linguagem própria, fora do palco italiano. O público se afasta do teatro por culpa dos próprios atores, mas aqui existe uma aproximação, pois existe reflexões de idéias e pensamentos. Bertolt Brecht escreveu: “é impossível deixar de admirar o pessoal de teatro. Isto porque eles conseguem, com uma reflexão tão fraca sobre o mundo real, emocionar os espectadores com muito mais intensidade que o próprio mundo”.
O encerramento fica por conta do próprio Brecht, com a cena final de “Alma boa de Setzuan”. Mas o que o dramaturgo alemão estaria fazendo em uma peça realista-naturalista, como mostra a cena do aborto de Nina, do texto “Quando as Máquinas Param”, interpretada magistralmente por Fernanda Pacheco? Talvez por que Brecht represente bem o caminho que o grupo está tomando, o de adotar uma atitude crítica do teatro e do mundo, porque nele habitamos. O ator é um ser social e político e deve saber transmitir isso, ao invés de insistir em entreter o público com malabarismos circenses pouco divertidos.
