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Crítica: Império dos Sonhos

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por Lucas Arantes

Saber quantos filmes existe dentro do filme “Império dos Sonhos”, de David Lynch, recém lançado em DVD, é um trabalho quase que de ourives. Descobrir isso é o mesmo que esmiuçar os personagens de “Cem Anos de Solidão”, do Nobel Gabriel Garcia Marques. Apesar da aparente complicação, a obra de Lynch não é um universo hermético, fechado em sua própria hostilidade. No lançamento do próprio filme o diretor chegou à afirmar que “Império dos Sonhos” era um filme simples e de um enredo também simples. De certo modo ele está certo. O diferencial fica no desdobramento do enredo e das ligações insólitas dos personagens, objetos e da linguagem cinematográfica que o diretor coloca em ato.

“Império dos Sonhos” talvez seja uma alucinação do dia de amanhã. O cineasta norte-americano, que começou jovem no cinema aos 29 anos, com “Eraserhead (cabeça de apagador) em 1977, filma como quem escreve, sem saber de antemão onde vai desembocar a sua trama. E é justamente por onde ele caminha e por onde ele chega, que está o interessante de sua narrativa.  

Linch É um diretor corajoso ao tratar de Hollywood. No início do filme, uma velha um tanto quanto bizarra, vai visitar uma atriz, dizendo que é sua nova vizinha. Cheia de presságios e contos ciganos, a velha aponta para o sofá em frente onde as duas estão sentadas e diz que se fosse amanhã, a atriz estaria sentada ali, do outro lado do sofá, e teria passado no teste para ingressar no novo filme em que tanto deseja.

E então, o filme começa ali, no dia de amanha, onde a atriz recebe a notícia que ganhou o papel do filme em que fez o teste. Todo o filme passa a ser uma alucinação dentro do delírio da cena da velha (que talvez nem exista), onde uma história entra na outra, no começo de forma sutil, depois de forma atordoante. A ficção entra na realidade, a realidade invade a ficção e o mais impressionante: a ficção passa a interferir na outra ficção criada pelo diretor, sem ter que fazer ponte na realidade, criando, assim, uma ficção terceira que invalida, de certa forma, as ficções que delas se subordinaram.

Lynch é um escritor onírico, que sabe se utilizar dos sonhos e da psicanálise. Ora o filme parece uma pintura ou um quadro de uma galeria contemporânea. Seus personagens são representações de outros elementos do nosso mundo interno e externo. O diretor sabe que um objeto simples, como um abajur vermelho, pode adquirir múltiplas interpretações, dependendo da maneira que é olhado. Faz um filme de terror sem precisar colocar monstros, pois o medo é universal e ao mesmo tempo, particular.

Lynch é um diretor obsessivo, como os seus personagens. Um artista completo. Canta e compõem em “Império dos Sonhos”. São três horas de associação livre, em busca de uma lógica dentro do filme e de seus significados e significações possíveis, que remetem à programas televisivos e outros trabalhos do próprio cineasta, como “Veludo Azul”, “Cidade dos Sonhos”, “Coração Selvagem” e “A Estrada Perdida”.

Sem estragar o final, Lynch termina o filme com uma mensagem de fôlego, de liberdade, no meio de tantos sentimentos e sensações persecutórios do enredo. É no desfecho que a realidade toma o seu lugar, com as reminiscências adquiridas no sonho (filme). A realidade é transformada pelo sonho (filme), mas é somente pela realidade que os sonhos podem existir. E com a temática dos sonhos Holywoodianos sempre recorrente em seus filmes, somado ao questionamento do valor de importância que a realidade tem no meio de tanta ilusão, Lynch termina dizendo algo como “vocês é que são reais, nós somos a fantasia”.

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Written by lucasarantes

setembro 10, 2008 às 4:05 am

Publicado em cinema

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Uma resposta

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  1. Longe de qualquer linearidade, é preciso gostar muito de Lynch para gostar de Inland Empire. Vê-lo como mais uma sucessão de mistérios do diretor, que não faz filmes para o entendimento, mas para o refinamento da sensibilidade e das percepções,como experiências sensoriais únicas. Em Inland Empire, o fascínio está na cor e na sucessão de labirintos, imagens, ambientes, que levam a êxtases típicos da Pintura. E na multiplicação de realidades/identidades/possibilidades. Uma viagem sem fim. E não é para ser feita por todo mundo.

    francisco lopes

    novembro 25, 2008 at 12:47 am


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