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Crítica: A Alma Boa de Setsuan

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O teatro ribeirão-retano foi agraciado no último domingo com uma cuidadosa montagem do espetáculo “A Alma Boa de Setsuan”, do dramaturgo e teórico alemão Bertolt Brecht. A peça fez parte do festival de teatro TPC e foi dirigida por Mateus Barbassa. No elenco, atores lúcidos deixaram o espectador suspenso pela palavra, elemento principal da montagem. O diretor descartou elementos fáceis de entreter e distrair o público, se arriscando, assim, a ousadias estéticas interessantes. Os atores, por conseguinte, impressionaram com seus tipos, marcando claramente uma narrativa interpretativa.

A história é uma fábula de “como ser bom se a comida do mundo anda tão cara”, fala de Chen Tê, personagem protagonista da peça. Chen Tê, escolhida pelos deuses pela sua bondade, protesta pela escolha dizendo que não é nenhuma “alma boa” e que apesar de ter acolhido os deuses em sua hospedaria, tem um lado mal e que além de tudo, vende seu corpo para pagar o pão. Os deuses não lhe dão ouvidos e a pagam pela hospedado amigável. Em seguida, a declaram a alma boa da cidade.

Chen Tê, em decorrência da situação e da quantidade de pessoas que vem pedir ajuda a “alma boa”, se vê obrigada a criar um primo, que ela mesma representa e que atua como o lado “mal” da personagem, dizendo tudo o que ela gostaria de dizer aos parasitas que vêm grudar em seu corpo em troca de alguma vantagem. É o lado negro necessário e social da personagem.

Cantigas de ninar, Mamonas Assassinas, rap, rock in roll, Björk e música erudita, compõem a excelente trilha sonora da peça. Duas expressivas atrizes atuam como a prostituta Chen Tê e seu primo, retratando sempre o seu caráter ambíguo, maniqueísta, passivo, irônico e lúcido sobre o mundo/situação em que foi sendo inserida por sua própria condição. Os outros atores não deixam por menos.

A peça faz parte do repertório do grupo ribeirão-pretano TPC, mas se distancia de outras montagens da companhia, já que “Alma Boa de Setsuan” faz parte do projeto Ademar Guerra, que visa o deslocamento pelo país de profissionais experientes para supervisionar grupos amadores. O que o TPC propôs foi um projeto pioneiro na cidade de estudo e montagem de Bertolt Brecht, com supervisão da respeitada Lúcia Capuani, atriz, professora e diretora teatral.

Esperamos que este espetáculo não caia no vício do teatro local: o de passar meses e meses de ensaio para a montagem de um espetáculo que só será apresentado na estréia (como conclusão de curso de uma escola e faculdade, por exemplo), sendo esquecido em seguida pelos atores, que partem para outras montagens, sem nunca ter executado diversas vezes uma única peça. O exercício de apresentar dezenas e dezenas de vezes é fundamental para o amadurecimento do elenco. Como diria Manoel de Barros “repetir, repetir, até ficar diferente. Repetir é um dom de estilo”.

Há muito que se aperfeiçoar na peça, mas como o próprio texto final do Brecht diz “cabe a você, público ouvinte (e pensante) dar continuidade a esta fábula na vida e buscar melhorá-la a sua maneira”. Como se os possíveis equívocos das personagens postas em cena pudessem ser mudadas com a nossa postura ética fora do teatro.

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Written by lucasarantes

setembro 15, 2008 às 8:36 pm

Publicado em teatro

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Uma resposta

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  1. Lucas, muito obrigado pela sua crítica.

    Mateus Barbassa

    setembro 15, 2008 at 10:59 pm


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