lucas arantes

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Pós-estréia “Suspensão”

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A atriz Juliana Sfair escreveu em seu blog (www.julianasfair.zip.net) suas impressões sobre o espetáculo “Suspensão”, que teve estréia no dia 19 de agosto no SESC de Ribeirão Preto. Coloco as impressões dela, pois as minhas ainda são desconhecidas. A única coisa que sei sobre o que vi é que acho que a história apresentada é cada vez mais interessante, principalmente depois do ótimo trabalho do diretor Mateus Barbassa e do time de atores que deu uma vida inimaginável aquelas personagens criadas por alguém em mim.

Quem ainda não viu a peça, aguarde para assistir antes de ler o texto abaixo.

“Breu, um mistério solto no ar, sussurrando em meus ouvidos o que aconteceria; enquanto eu pensava no que já havia acontecido. Aquele senhor tricotando freneticamente sem parar, como se precisasse suprir uma carência, voltar ao passado e mergulhar com alguma tentativa de equilíbrio na solidão sem cura. Uma caneca com água, uma poltrona antiga, um criado mudo com livros em cima e nas gavetas. Autores famosos,poetas marcantes.Será que essa loucura começou no instante em que ele incorporou algum personagem ? Ou foi o medo e a realidade fria? Desprezava o que já havia lido, mas Shakespeare não deixou de ser o seu favorito, o seu salvador e criador das ilusões, verdades e frases clássicas, ainda havia algo em que aquele velho depositava algum carinho. Sabendo desse seu carinho por Shakespeare,me interroguei se aquela amargura tão expressiva seria uma frustração do passado.Um sonho não realizado:Sonho de uma noite de Verão? Hamlet? Romeu e Julieta? Qual personagem ele queria ter sido e não foi? Muitos até hoje sonham em ser Hamlet, como eu sonho em ser Lucia (Vestido de Noiva). E se daqui há alguns anos,quando minha carreira teatral estiver quase esgotada,será que Lucia ainda me perturbará? Para ele só Shakespeare salvava; não a humanidade, pois só o criador de suas dores poderia devolver sua integridade mental. Depois d tentar entende-lo, acendeu uma luz pequena, um foco em uma flor vermelha, era um enfeite, um objeto de decoração, mas tão expressivo que ficaria horas olhando para ela, sem dizer nada. Por si só ela se mostrava plena e solitáriaao mesmo tempo,mas tão bela que a melancolia da cena dispensava qualquer voz ou som. Ao lado uma cama antiga, um cabideiro e uma moça que estava acordando, camisola de tecido fino, não consegui definir bem se era seda pura. Não por ser leiga em conhecimento de tecidos,mas porque o biombo que estava atrás, era chamativo.Chamativo por possuir um requinte sedutor. Depois chegou um moço, talvez fosse Pablo?Não sei, mas era tão lindo e perdido que me dava angustia em ver tanta beleza confusa em meio às cores do seu cachecol ímpar. Ele tinha mais alma do que todos daquela casa, que de tanta alma caminhava todos os dias na cidade vazia de gente e sensações. Ela tinha algo que queria explodir berrar ou morrer. Cortava os legumes,como quem cortaria sem remorso os culpados pela sua vida sem glórias. Eu fui ficando tão comovida e cheia de compaixão, apesar daquele olhar duro e frio, mas ao mesmo tempo não poderia ser engolida pela trilha sonora. Ou melhor tinha que permanecer ali,concentrada e consciente dos atos,observar sem sentimento os olhos,seus corpos,gritos,inferno,loucura e cansaço. De tão exausta, me permiti uma pequena alucinação, dois seres estranhos e cômicos apareceram e eu voltei a sorrir, mas não sorrir como boba. Eu me livrava do peso de todos,esses pesos do mundo que a gente carrega sem ter que precisar.Havia neles uma inteligência infantil,uma coragem de adultos e tudo ficava tão cênico e atordoante ao mesmo tempo,que o mundo criado por eles me parecia convidativo para um passeio em suas críticas conscientes. Só que minha intuição dizia que eles iriam embora de alguma forma, mas o ballet e seus passos leves ainda dançavam nas minhas retinas. Um verdadeiro caos de humanos, possuídos pela dor, manipulação, ódio e amor. Amor? Talvez aquele filho que ela esperava seria sua única salvação, sua chance de nascer dentro dela um sentimento mais nobre e gentil. O velho, já não estava mais ali, talvez tenha se escondido nas linhas do livro e se perdido nas palavras de ser ou não ser eis a questão. Ele? Ele dormia o sono de paz, paz de tudo. Descansou seu coração jovem.Enquanto ela criava inocentemente sua sala,seu quarto,colocava as cadeiras de madeira em seus lugares,como se algum dia fosse receber alguma visita. A criança não poderia nascer, porque aquela mulher já estava morta em vida. Apenas um corpo pálido vestindo um belo vestido azul. Ás vezes morrer cantando é mais honrado que viver se arrastando sobre lixos. Aos poucos seus olhos foram fechando e sua voz enfraquecendo, foi tão lírico e nostálgico que eu não consegui sentir tristeza ao ouvir seus últimos suspiros, porque é assim sempre; suspiramos profundamente sempre que um sonho não pode acabar”.

Written by lucasarantes

agosto 25, 2009 at 2:51 am

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Teatro “Suspensão”, estreia 19 de agosto no SESC-RP

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SESC Ribeirão Preto

Dia: 19/08/2009 (quarta-feira) às 21h

Texto: Lucas Arantes

Direção: Mateus Barbassa

Elenco: Fernanda Lins (ELA), David Tostes (ELE), Ademir Esteves (AVÔ), Maria Angêlica Braga (SIDARTA), Lucas Chaves (GREGÓRIO)

Não recomendado para menores de 16 anos

R$ 10,00 (inteira)

R$ 5,00 (matriculados no SESC)

R$ 2,50 (trabalhador no comércio)

SINOPSE

Baseado em uma linguagem pós-dramática, a Trupe Acima do Bem e do Mal apresenta o drama “Suspensão”.

Em uma época familiar, sem a delimitação do tempo, as pessoas deixam de existir, restando apenas ELE, ELA e o AVÔ. No prólogo, eles passam procurando vida pelo Brasil, estabelecendo morada em Curitiba. Apesar dos nomes, as cidades não são mais a idéia que os seus nomes representam. Os personagens não encontram ninguém por onde passam e o ato da procura deixa de fazer sentido. O que no começo era motivo de alegria, pois nada gastavam e tudo usufruíam, foi transformado logo em tédio, medo, desespero e neurose. Isso pela ausência do outro, da população, que até então existia e implicava significado para a vida de cada um deles.

Em determinado momento do drama, ELE diz: “O que mais precisamos se não existe mais ninguém para nos observar? Para comprarem, trocarem o que eventualmente produzíssemos? Para rirem de nossas piadas? Para nos entreterem com as suas?”. É justamente a relação com esse outro e com a memória/resíduo de cada personagem que a peça implica.

Por onde ir ou o que fazer caso a ausência de idéias, ideais, sonhos e conquistas for extinto? No caso da personagem ELA, a peça mostra até onde o delírio da solidão pode criar os mais diversos sonhos de realidade, fazendo com que, como aconteceu com Adão e Eva, o mundo possa ser povoado por ELE e ELA novamente. “No começo não era Adão e Eva? Os Filhos deles devem ter tido relações entre si e com seus pais, antes do incesto ser proibido”, delira ELA em determinado momento do drama.

No meio desse bolo de sentimentos e desafetos, há o AVÔ, que relembra uma época antiga, sem esperança, ouvindo em seu Rádio, gravações de um discurso sobre a Teoria da Água e a origem da vida. Essa “teoria inventada” é um contraponto sobre a ciência e sua visão concreta da vida para explicar a nossa origem, deixando de lado o mistério que nos cerca.

Em uma metalinguagem, “Suspensão” evoca o delírio com os personagens GREGÓRIO e SIDARTA, ambos amigos de um ideal fantasioso sobre o suicídio. São eles Deuses vestidos de mendigos? São eles messias de um acontecimento que já passou? São eles a representação do inconsciente em um mundo no qual a fragmentação substitui a subjetividade?

É por essas e outras razões que “Suspensão” se faz necessário, por condensar sensações, delírios e sonhos em um espetáculo sobre a incoerência e ambivalência de nos entendermos uns aos outros. Por parecermos tão familiares, mas tão estranhos perante o nosso desejo e ao desejo do outro, acabamos sendo desconhecidos para nós mesmos.

Written by lucasarantes

agosto 3, 2009 at 6:30 pm

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