lucas arantes

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Aniversário

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Hoje faz três anos que vivo de esmolas e para comemorar, comprei um lanche do Mc Donald em sua homenagem. 

Geralmente eu só subo para esta parte da cidade quando é frio – muito frio. Ou quando preciso fingir morar debaixo do viaduto para ganhar pão, sopa e cobertor. O ruim disso é ter que ouvir os voluntários do teatro que trabalham na igreja declamarem palavras do Senhor, tentando nos converter com pão e circo – por isso prefiro dormir aqui, longe do Centro da cidade.

Uma vez, bêbado e sem dinheiro, consegui seis reais e trinta centavos dançando nessa parte nobre do Centro.

Não era bem uma dança. Fiquei entre a calçada e a rua fingindo ser regente de orquestra dos carros e pessoas que por ali passavam. Apesar de ter feito isso bêbado a primeira vez, resolvi, com o seu lanche na mão, repetir a dose e brincar de maestro urbano mais uma vez. 

Foi quase a glória hoje à tarde. Todas aquelas imagens passando por mim quase sem som, por causa da minha surdez, fazendo do caos desse mundo um lugar agradável para se existir.

Se não fosse um homem passando de mãos dadas com seu filho na avenida, a Glória da dança seria completa. Se não fosse ele desviar a minha atenção ritualística, teria sido o dia perfeito. Vendo os dois juntos, pai e filho, senti como se todos rissem de mim. Que o mundo me boicotava. Por isso sai correndo até aqui.

Preconceito? Talvez. Mas vê-los despertou-me aquilo que às vezes me da, sabe? Aquela vontade de pegar essas pessoas felizes e mostrar o meu sofrimento afundando a cara deles no cimento.

Mas eu respiro. Respiro, e tento perdoá-los. E perdoando, eu vivo.

Agora, para comemorar esse dia quase feliz, estou aqui.

Estou com minha melhor roupa, com o cobertor entre os ombros, umas duas ou três bitucas de cigarro no bolso, uma pinga para sorrir e o seu lanche. O seu lanche do Mc Donald.

Você tem vergonha de mim meu filho? Espero que não.

Comi metade do sanduíche, cheguei a tocar na batatinha e dei um gole no refrigerante. Tudo bem?

(pausa)

Olha, vou deixar o lanche aqui em cima e vou ali atrás da àrvore para não te atrapalhar. Quem sabe hoje você não sai do tumulo e vem pegar o seu presente.

E pode sair a qualquer hora. Vou passar mais esta noite te vigiando.

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Written by lucasarantes

outubro 22, 2009 às 4:27 pm

Publicado em literatura

2 Respostas

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  1. Adorei o texto, sensível, cruel e dolorido com um soco no estomago.

    Mateus Barbassa

    outubro 22, 2009 at 4:36 pm

  2. è…. as vezes (ou sempre rs) a contradição entre felicidade e tristeza é gritante! Abrs

    Caio Garrido

    outubro 22, 2009 at 7:32 pm


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