lucas arantes

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Para salvar a Praça Roosevelt

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(recado para o Ivam) Ficar sem palavras diante de uma notícia dessas é a primeira coisa que ocorre. Primeiro, porque falar sobre coisas que não podemos reverter é complicado e segundo, porque a trajédia tem alguma coisa de pesadelo, e no pesadelo, ficamos paralizados porque não acreditamos no que parece estar acontecendo… Mario Bortolotto sofreu um atentado de jovens que queriam assaltar um teatro… que queriam derrubar uma história que eles não devem fazer idéia do quanto foi difícil construir e do que significa para todos nós… Brutal: gente vazia pode ser muito perigosa, como diz o título da peça do dramaturgo…  mas gente boa como todos vocês da Praça Roosevelt são capazez de reverter este pesadelo em sonho novamente, esperando o Bortolotto se recuperar e voltar a Praça como ela sempre foi… unida e movimentada… eu sou um e recente no lugar, mas estarei sempre por lá, mesmo se for sentado no chão…

“O Teatro não vai se intimidar com a violência, muito menos se submeter aos bandidos, aos que querem a escuridão nas ruas, aos querem que o povo fique em casa, acuado. Mário Bortolotto é um símbolo de nossa Praça Roosevelt. Seu estado de saúde é grave, mas está resistindo e viverá”, do blog e do manifesto dos Parlapatões, que será realizado hoje a noite no Espaço Parlapatões, reuninado artistas, jornalistas e amigos para leitura de trechos das peças do Bortolotto.

PARA SALVAR A PRAÇA ROOSEVELT: Por Márcia Abos (marciaabos@gmail.com)

Ao ouvir as palavras de ordem dos assaltantes que invadiram o Espaço Parlapatões na madrugada de sábado, mandando todos se deitarem no chão, Mario Bortolotto teria respondido: “Ninguém vai assaltar ninguém aqui”. Imagino a cena e me assombro com a coerência deste grande artista. O dramaturgo, diretor, ator, músico, escritor e poeta é de uma coerência rara. Jamais fez concessões em sua arte, tampouco na vida. A reação de Mario a um absurdo assalto em um teatro (alguém já ouviu falar de tiroteio em teatro?) diz muito sobre ele, que pagou um preço alto demais por ser fiel a si mesmo: foi alvejado por quatro tiros, alguns deles em órgãos vitais. Ninguém que o conhece duvida de sua recuperação. Ouve-se na praça amigos dizendo: “ele é um touro, um búfalo, vai sair dessa logo”. Vai sim, mas a tristeza e a dor que se abate sobre artistas e frequentadores da praça precisa de consolo. Há dez anos teve início o processo de revitalização da Praça Roosevelt. Não, a praça não virou um local habitável e cheio de gente por decreto. Começou com Os Satyros que decidiram abrir um teatro no local. Mas ninguém ia até a praça, espaço na época dominado pela criminalidade. Era um lugar sinistro, que metia medo até nos artistas que iniciaram o processo. Mas eles logo entenderam que a praça poderia se transformar com uma injeção de vida. Colocaram uma mesinha com cadeiras na calçada, um convite para um bate-papo. Por muito tempo essa mesinha ficou vazia. Mas era um gesto simbólico, eles sabiam que não podiam recuar. E acertaram. O tempo provou que a praça pode ser ocupada pela paz, por muita alegria e uma ebulição artística sem igual. Demorou, mas a praça tornou-se um local digno deste nome, onde gente de todo tipo se reúne para ir ao teatro, trocar idéias, criar. A Praça Roosevelt é o que temos de similar a Ágora grega, um espaço livre e público. Mas a tragédia que se abateu sobre a nossa praça na madrugada deste fatídico dia 5 de dezembro de 2009 é também sintoma de um retrocesso na revitalização que começou com uma mesinha na calçada. Há três semanas não existe mais nenhuma mesinha na calçada. É proibido. E a vida parece estar se esvaindo. Muita gente continua a ir aos teatros, mas terminada a peça eles se vão. Acabou o alegre burburinho antes e depois dos espetáculos, acabou a alegria de quem pode ver em uma noite duas peças diferentes e aproveitar os intervalos para filosofar. Triste constatar, mas este é o caminho para transformar os teatros da praça em algo parecido com o que foi o vizinho Cultura Artística ou como é a elegante Sala Julio Prestes. São lugares de passagem, uma espécie de oásis das elites no meio de um entorno totalmente degradado. Quem vai à Sala Julio Prestes chega em seu carro blindado e com vidros negros, desce na porta escoltado por seguranças, evita olhar para os lados e ver os ‘nóias’ e entra para ouvir as mais lindas e bem executadas sinfonias. Acabado o espetáculo, a saída é ainda mais rápida que a chegada. O jantar, o cálice de vinho, a cerveja são consumidos bem longe dali, no Itaim, nos Jardins, na Vila Olímpia (ou qualquer outro bairro onde é impossível lembrar que existem moradores de ruas, drogados e mendigos em São Paulo). Ninguém que conhece a Praça Roosevelt acredita que a arte que se cria ali pode sobreviver sem o oxigênio de um entorno vivo, que se alimenta e é alimentado pelo teatro. Portanto, convoco a todos a estarem na praça. Nossa presença é a única coisa que impede a sua degradação. Certo, é proibido mesinha na calçada. Juntos talvez seja mais fácil derrubar o decreto que as proíbe, este sim capaz de destruir nossa ágora. Se a revitalização da praça não aconteceu por decreto, sua degradação pode ser consequência de um decreto exdrúxulo que proíbe singelas mesinhas na calçada. E enquanto não pudermos ter mesinhas na calçada, estaremos lá, nos teatros, em pé, sentados no chão, andando de um lado para o outro… Fonte: http://dramaticoblog.wordpress.com/

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Written by lucasarantes

dezembro 6, 2009 às 7:26 pm

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2 Respostas

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  1. Lucas, vc definiu bem, parece um pesadelo.
    Pena eu ter sido o portador dessa notícia tão nefasta, mas tenho certeza que o Bortolloto irá melhorar.
    Esse fato talvez sirva pra alertar as autoridades que algo precisa ser mudado.

    Mateus Barbassa

    dezembro 10, 2009 at 4:37 am

  2. Mesmo depois de tragédias como a do dramaturgo Bortolotto e seu amigo, lembro que é preciso não perder o foco do que realmente importa para evitá-las.
    A Praça Roosevelt é, antes de tudo, um edificio de 5 andares sobre uma via expressa, um complexo urbanístico que funciona, com estacionamentos, serviços e vias subterrâneas. Ao nível da superficie, os usuários demonstram gostar dela: está com os horários todos programados para skatistas, exposições, desfiles. É inegável que qualquer edificio abandonado, sem limpeza nem iluminação vira covil de ratos, aranhas e marginais. Como aconteceu há algum tempo com a marquise do Ibirapuera, com o Jardim da Luz e tantos outros lugares publicos abandonados.

    O que não se explica é a indiferença da prefeitura, que até poderia autorizar, ou licitar, uma administração local, independente, com um conselho local, de moradores e usuários. Um tipo de arrendamento – apareceriam centenas de interessados! Derrubar milhares de metros quadrados de caríssima construção de grandes vãos em nome do preconceito só para fazer o faturamento de alguns grupos financeiros é absurdo e aumentará o caos no entorno do local.

    Há de fato muito preconceito, dirigido de forma doutrinária e confusa. Se fosse um livro já teria sido queimado? É preciso lembrar aos “inimigos da ditadura” que a Roosevelt foi concebida na ultima prefeitura legitimamente eleita de SP antes da ditadura militar, a de Faria Lima. Tem inumeros espaços destinados ao público; no setor na Consolação (que foi invadido pela Policia), que também querem demolir, tem até um anfiteatro, bom para uma escolinha de arte dramática. Mas Paulo Maluf e seus asseclas, que nunca foram capazes de produzir um só pensamento util, deformaram seu uso (fizeram até boate!) e criaram muitos problemas, felizmente todos solucionáveis.

    Demolir o que? Tudo? Implosão total, 27 mil m3 de concreto em cima da pista da Ligação Leste Oeste? Só para tirar o entulho serão necessários uns 4 anos. E demolir só o Pentágono, que tem mais de 5 mil m2, é uma ação de extremo perigo, pois a estrutura só tem UM unico pilar fixo, o central (TODOS os outros são articulados em coxins). Se estourar isoladamente UMA viga do teto o conjunto todo desaba em cima da laje do estacionamento, que pode ir caindo até chegar na Via Leste Oeste.

    A critica da intelectualidade senil é cheia de descasos. Descaso pelo que não compreendem, descaso pelo suado dinheiro público (suado pelo contribuinte, é claro), descaso pela verdade. Qualquer edificio abandonado vira covil de marginalidade em pouco tempo. Campos Elísios, Santa Efigênia, mostram a que me refiro. Até o Copan quase chegou aí, quase se transformou num São Vito ou num Edificio das Nações, mas hoje é patrimonio cultural, tombado pelos intelectuais, os mesmos que não conseguem compreender conceitos elementares de administração e vitalização de espaços públicos, justamente os conceitos aplicados por um síndico que salvaram o Copan da decadencia total. Na verdade estes olimpicos dogmáticos odeiam o pragmatismo, a unica atitude capaz de cuidar do cotidiano. É claro que lixo e descaso só atraem moscas. E tiram do povo o pleno direito do desfrute. Demolir 10 mil m2 de construção com base em preconceitos como este é um crime de desperdício de muito dinheiro que poderia ser melhor empregado em pintura, conservação, ajardinamento, contratação de pessoal e implantação de uma zeladoria responsável. São Paulo já tem muitos exemplos de bom senso prático, seja nas adaptações de velhas fábricas, gasômetros, ou até sobras de terreno transformados em pequenas praças, em vez de depósitos de lixo e imundicie. Uma reforma radical e demolidora na Praça Roosevelt poderá prejudicar até a revitalização que já foi conseguida pelo pessoal do teatro. Preciso é terminar com a arrogância, com os preconceitos e os interesses politicos-financeiros mimetizados de ressentimento.

    Max Dias

    janeiro 4, 2010 at 5:03 pm


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