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“O Sétimo Continente”, de Michael Haneke

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“O Sétimo Continente”, lançado em 1989, é o primeiro filme de Michael Haneke.

Uma máquina de lavar carros. O silêncio por dentro. A proteção dos vidros, uma camada, um escudo frágil contra o monstro da vida.

–         O que foi isso?

–         Nada não.

Um ruido de liberdade. O filme, de 1989, é uma afronta na sociedade de hoje que ainda não se libertou de certos conceitos para estar no mundo que acreditava antigamente.

Como recomeçar do zero depois de tanto tempo perdido? Impossível.

Haneke é um cineasta cruel. Não espere concessões ou cuidado para não desagradar o ouvinte. Pois a palavra é dura. E chega como ferro.

Ele trabalha com situações limites.

Uma família perdida, uma sociedade perdida, sempre em busca de um sentido, em busca de compreender o que se passa lá fora, de casa. Em busca de um marco zero para começar a dar sentido dentro de um mundo tão cheio de sentidos.

– Meu Jesus, deixe-me ser uma boa menina para ir ao paraíso.

A afirmação é de que aqui é o inferno. Que esse tipo de vida criado, cercado de cimento e tédio, é um fardo.

E a televisão que, ao invés de mero espetáculo, se mostra vazia dentro de um cômodo totalmente longe do universo estranho em que vivem as figuras televisivas, sempre mostrando, e não escondendo. Haneke esconde para poder mostrar. E faz isso como um compositor.

E uma praia. Que é quase uma pintura. Que é quase uma fuga desse espaço fechado. Uma praia sem ninguém. Quem ninguêm nunca alcança (como o céu longe desse inferno de gente?).

Pessoas que se uniram e formaram uma família que, infelizmente, para vergonha da espécie, não de certo. Isso é claro desde o começo. Aliás, o que é dar certo? Quando alguns dão errado?

Sem dúvida, no diálogo.

No filme, os personagens quase não se falam, já desistiram de se entender faz tempo.

E o diretor, como sempre, não mostra a morte. Por que talvez, aqui, ela representa o começo, e não o fim. Mito biblíco. Mito nosso. Mito que não deu certo. Como reiventar algo novo depois de tanto tempo insistindo no erro? Não está claro que o caminho é outro?

É sempre na busca por um começo. Talvez, para começar, é preciso deletar tudo o que existe. Apagar. Esquecer.

Como, em um cotidiano, podem surgir coisas tão assombrosas? O terror não está no sangue, está nos detalhes que o cineasta coloca.

E o olhar infantil que olha todo esse estranho com familiaridade?

(Se escrevo em fragmentos, é para não estragar o filme para quem não viu. Não quero, aqui, explicar o filme, pois nada melhor que o próprio filme para fazer isto. Quero apenas expor impressões de uma obra de arte para um dia eu consultar e lembrar do que eu achei).

E os cortes que o diretor faz lembram os cortes que o diretor Mateus Barbassa fez na encenação da minha peça “Suspensão”. Com precisão. Quese cirúrgico. Pois é arte, e está viva. E é preciso saber editar para alcançar o momento certo.

Você já caiu nessa rotina? Então foge.

Um diretor que faz mal. Não porque ele provoque por provocar, mas porque a própria arte dele se expressa de forma perturbadora, assim como o próprio contéudo, perturbador.

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Written by lucasarantes

setembro 11, 2010 às 7:36 am

Publicado em cinema

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