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pequena visão sobre roberto zucco

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Dois soldados que, por guardarem uma prisão tão segura, acabam tendo pouco tempo de trabalho e tempo de sobra para delírios sobre a vida, para o próprio tempo e a imaginação: “Você nunca imagina nada e é por isso que você nunca ouve nada e nem vê nada”. Até que uma das visões de um dos soldados revela Roberto Zucco em fuga da cadeia e bagunça o sentido de real e imaginário desses guardas, revelando, logo de início, a força do personagem principal, esse animal descomunal e transgressor que iremos acompanhar durante a montagem de Roberto Zucco do grupo Os Satyros, com direção de Rodolfo García Vázquez e trilha sonora de Ivam Cabral.

Zucco perturba, porque é uma figura instintiva e primitiva demais. Ele deveria nunca ter escapado, assim não colocaria em dúvida o sentido da civilidade na humanidade. Mas logo o povoado se mostra um espelho do personagem – e revela-se tão destruído quanto ele.

É por meio de uma estética decadente que o grupo Os Satyros encena a peça, estruturada em “blocos-pancadas”, que levam o público para dentro da cena, já que a peça movimenta (literalmente) a platéia de uma forma incrível para ver quadros e ângulos diferentes da história.

Neste espetáculo, Bernnard-Marie Koltès, escolhe por acompanhar a vida desse animal que passou sobre a terra, o Roberto Succo, nascido em Veneza em 1962 e serial killer, assassino de várias pessoas na Europa entre 1987 e 1988. O dramaturgo deve ter escolhido a história para sintetizar a história de tantas outras pessoas que existiram e fizeram de suas vidas transgressões sociais extremas, se mostrando um sintoma da própria estrutura social (e familiar).

O ator Robson Catalunha conduz Zucco com maestria, como tem que ser: uma explosão contida num corpo/prisão. O personagem segue como um grilo, devastando as plantações por onde pisa. O jogo de voz do ator potencializa a atmosfera animalesca.

Pessoas em situação de desespero aparecem a todo o momento, assim como A MENINA que surpreendentemente encontra em Zucco alguma salvação possível, revelendo-se mais perdida que a própria perdição.

Cléo de Páris é A IRMA. Em uma cena magistral sai do papel de coadjuvante e fala de sua sexualidade, lavando-se de tudo aquilo que o masculino representa a ela, mas ainda por trás do conteúdo da vida de sua irmãzinha.

A SENHORA, A MENINA e O IRMÃO são conduzidos com precisão por seus intérpretes. Bonito ver o talento pulsando para fora do corpo nesta peça.

Mais ousado que Édipo, mesmo com os avisos dos diversos “oráculos” que aparecem durante a peça aconselhando para que Zucco não se perca, este segue somente o seu único princípio suicida. A peça fala sobre a megalomania do voo de Ícaro, mas sem intenção de herói. É a concretude em si. Tudo isso e mais um pouco faz desse espetáculo uma experiência ficcional construída a maneira que só Os Satyros sabem fazer. O texto está praticamente na íntegra, com pequenos cortes e alterações, mas Bernard Koltés grita ali em cena.

Um trem descarrila, pois é passível de erro, assim como um homem sucumbe, já que nem todos os homens dão certo.

“Por que um autor tão apaixonado pela vida escreveria sobre um assassino em série?”, pergunta o diretor, que obteve a resposta em discussão com o elenco: “Ele sabia que estava morrendo quando escreveu a peça”. Talvez não seja preciso ser um assassino para escrever Crime e Castigo. Já dizia o sábio Platão: “O homem virtuoso se contenta em sonhar com o que o perverso realmente faz”. E nós todos nos realizamos assim, na arte, através de Roberto Zucco.

 (A temporada vai até o dia 31 de outubro)

Mais informações: http://satyros.uol.com.br/

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Written by lucasarantes

outubro 12, 2010 às 7:43 pm

Publicado em teatro

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